Conivência política

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São estarrecedoras as afirmações do secretário da Fazenda Giovani Feltes (PMDB) em palestra realizada na sede da Associação do Comércio, Indústria e Serviços (ACI) de Carlos Barbosa.

O mote do evento era a combalida situação das finanças estaduais, mas o político enveredou a falar sobre inúmeros outros assuntos, relativizando a prática de caixa dois, revelando que virtualmente todas as campanhas políticas se utilizam deste expediente e mencionando até a eleição de um traficante para vereador em Novo Hamburgo.

É tão grave o tom das declarações de Feltes que a reportagem publicada em primeira mão pelo contexto em seu site ganhou repercussão estadual e nacional. Veículos como Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Pioneiro, Jornal do Comércio, Zero Hora, Correio do Povo, RBS TV, SBT, Record,  Sul21, TV Pampa, revista Época, rádios Gaúcha e Guaíba, NH, Diário de Canoas, G1 e outros publicaram notícias utilizando as informações deste jornal.

Ex-vereador, prefeito, deputado estadual e atualmente deputado federal licenciado, Feltes deixa no ar que praticou caixa dois em suas campanhas ao questionar “quem dizia que não?” para doações de campanha não contabilizadas. No mínimo, espera-se que o Ministério Público e a Justiça Eleitoral investiguem com afinco as contas do secretário, principalmente as referentes à última eleição. As bancadas do PT, do PCdoB e do PSOL anunciaram que entrarão com representação no Ministério Público Federal, no que fazem muito bem. A Câmara Municipal de Novo Hamburgo também anunciou que ajuizará interpelação judicial para que o secretário se explique a respeito das declarações sobre o traficante que teria sido eleito vereador no município.

As falas do responsável pela administração das finanças estaduais, às vésperas da votação do pacote do governo Sartori que prevê a extinção de secretarias, fundações e outras medidas drásticas, geram a certeza de que a reestruturação do governo do Rio Grande do Sul não está sendo conduzida com a transparência e a idoneidade com que deveria.

Em outubro, foi julgada como procedente uma ação do Ministério Público por conta da escultura “O Pé”, em Campo Bom, município do qual Feltes foi prefeito e vereador. Segundo o órgão, o monumento faz alusão ao próprio político, que era conhecido na cidade como “Pezão” e “Pé Grande”. Nas palavras do MP, ele “causou lesão ao erário ao desviar e utilizar verba pública no montante de R$ 45.210,40 na construção (...) destinada à promoção pessoal”.

Num momento em que a operação Lava Jato devassa esquemas de todos os tipos, é uma boa hora para que detalhe as traficâncias a que se referiu. Que na política brasileira não existem vestais, todos estão plenamente cientes, mas é preciso dar nome aos bois. Se o secretário da Fazenda conhece tantas maracutaias, por que não as denuncia? Giovani Feltes deve explicações satisfatórias à sociedade gaúcha; caso não as tenha, a secretaria da Fazenda precisará de um novo titular.

Foto: Maíla Facchini

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